Na periferia da cidade de Maputo, tudo se faz. O objectivo é garantir comida. Se não é agricultura é negócio, variando de pessoa para pessoa ou de mulher para mulher. Algumas mulheres são camponesas e comerciantes ao mesmo tempo. Outras desempenham uma e única tarefa das referidas, sendo a aposta delas a extracção de algo para o seu sustento, assim se faz a vida. Qualquer actividade contribui para o desenvolvimento de Moçambique não importa o tamanho, onde é desenvolvida e por quem. O que se quer é que ela seja justa ou sob a lei.
Uma frase solta de um político moçambicano diz que alguém ao procurar desenvolver-se com aquilo que faz está a contribuir para o desenvolvimento dos outros, isto é, a actividade que esta pessoa realiza envolve, de uma ou de outra forma, mais outras pessoas que também desta querem desenvolver-se.
Para este artigo conversamos com muita gente, entre camponeses e comerciantes nos distritos municipais KaMavota e KaMubucuane, ambos na periferia ou arredores da cidade de Maputo que nos explicam como vivem e de que maneiras ganham o seu pão diário. Na cintura verde de Maputo existem trinta associações de camponeses que congregam catorze mil e seiscentos membros e um número indeterminado de cooperativas e produtores singulares que exploram uma área física de mil e quatrocentos hectares.
Os camponeses filiados nestas associações alcançaram uma produção recorde de trinta e três mil toneladas de produtos diversos na década de noventa, mas nos últimos anos assiste-se uma regressão, como se pode aferir nas declarações de algumas camponesas que deram o seu depoimento, aliás a informação de recessão no sector da agricultura, com mais de 80% de mão-de-obra constituída por mulheres, regista-se um pouco por todo o país.
Deve-se lembrar que Moçambique é o único país na região da SADC ainda com baixa produtividade por hectare e que não ultrapassa a barreira de uma tonelada. Esta informação foi tornada pública num seminário sobre os desafios do crescimento económico e criação de emprego em Moçambique. Neste encontro revelou-se também que a fraca utilização de fertilizantes, pesticidas, tracção animal, rega e sementes melhoradas na agricultura familiar são alguns dos factores que imperam que se ultrapasse a barreira de uma tonelada por hectare.
Maria Fernanda diz que atravessa diariamente o vale de KaMavota, na zona de Laulane, para Malupane, na Costa do Sol, onde tem machamba. Ela afirma que as pragas, a falta de água, meios de lavoura e o assalto aos campos agrícolas por habitações colocam em risco a produção de comida naquela baixa.
Maria Cossa é camponesa daquela baixa desde 1997 e diz que apesar dos solos serem secos não vê motivos para parar de trabalhar a terra, recordando-nos o ditado que diz que "quem não trabalha não come".
Ela diz que o sonho dela era produzir para vender, mas pelos desafios ligados a pragas, falta de água e de instrumentos agrícolas e ainda a pobreza dos solos, este sonho jogou fora, dedicando-se apenas à produção para garantir comida para a sua família ou auto-subsistência ou ainda para não morrer a fome. Na conversa connosco pediu apoio às autoridades moçambicanas em insumos agrícolas e abertura de canais de irrigação.
Ernesto Comé é agricultor que procura ganhar a auto-estima na agricultura. Perdeu emprego em 2007 e passou a dedicar-se à actividade agro-pecuária no vale de KaMavota, com cerca de novecentos hectares. Comé explora em regime de aluguer os campos da falida cooperativa Agostinho Neto, pagando uma renda de dois mil meticais por cada venda.
Este camponês diz estar a enfrentar o problema da falta de água para desenvolver a agricultura, apontando que a única vala de água próxima da sua machamba está seca. Ele produz hortícolas há 27 anos e apesar das adversidades tem estado a lutar para ganhar a vida, estando a empregar na sua parcela 22 outros camponeses incluindo mulheres.
Celestes e Ivone Adriano são vendedeiras de mercado e vivem em Boane na província de Maputo. Elas integram o grupo de mulheres maguevas que adquirem repolho, pepino e feijão verde na baixa de Mafuiane, para posterior revenda a outros intermediários no mercado grossista do Zimpeto na cidade de Maputo. Sublinham que fazem este trabalho desde 1998. Para elas, o comércio é uma diversão, porque não conseguem deste, lucro para compensar as suas despesas (incluindo o transporte de deslocação) e ainda concorrer com outras mulheres julgadas sucedidas neste negócio informal.
No entanto, Martina Machungo, directora de Agricultura na cidade de Maputo, diz que as chuvas excessivas do ano dois mil destruíram a espinha dorsal da produção de comida nas zonas verdes desta parcela moçambicana ao afectar algumas comportas e valas de irrigação desta área e que nos últimos anos tem sido onerosa a sua recuperação.
Na área da agricultura, Martine Machungo disse que o Governo de Moçambique está a implementar um plano de revitalização da produção nas zonas verdes, para reduzir a dependência às importações, sublinhando que tem se estado a trabalhar para se ter água garantida para todos os meses do ano. Reconheceu que o número de extensionistas é bastante reduzido para atender os cerca de 14600 camponeses, estando a cidade de Maputo com 12 extensionistas formados.
Afinal nem todas as áreas vão mal, apesar disso, queixas não acabam. Rosalina Magaia chefe de família é modista há 23 anos e não deixou de se queixar. Ela é proprietária de uma pequena boutique costurando uniformes para diversos fins e diz que os seus rendimentos não ajudam para muito, mas consegue pelo menos pagar a escola dos seus três filhos com o lucro do seu trabalho.
Rosalina diz que apreendeu a profissão numa outra boutique de sua prima que depois foi a falência e por ela não ter outra coisa para fazer entregou-se nesta actividade que hoje lhe resgatou a auto-estima.
O comércio envolve também mulheres jovens, algumas das quais perfilando na venda de produtos de beleza para se sustentar. Necha Manuel é comerciante no mercado Adelina, também na cidade de Maputo. Para ela, tudo vai bem e encoraja as outras mulheres a enveredar por este negócio não obstante serem seus futuros concorrentes. Ela diz que gosta de ver todos a viverem bem.
Necha revelou que com os resultados deste negócio além de custear a sua escola, apoia na dieta alimentar da casa dos seus pais e compra roupa para os seus irmãos. Seu maior sonho é ser jornalista e está confiante que vai alcançar este desejo. Apesar de tudo estar a andar bem, Necha Manuel condenou o excesso de impostos nos mercados e da desonestidade de alguns fiscais que agravam as taxas a cobrar.
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